A questão não era desvendar o indecifrável. Os mistérios do coração
andam muito longe de um pergaminho qualquer. O que ela queria, naquele
instante, debaixo da sua luz solitária e daqueles olhos perdidos, era
romancear. O filme indiano que acabara de ser visto falava a mesma língua
simples e lúdica das pequenas coisas, como o passeio dos seus dedos pelo braço
de um estranho. Era confortável, admitia, sentir-se aconchegada num abraço
ainda desprovido das histórias a dois. Quem sabe era esse o sorriso tímido,
quase sempre escondido atrás das grandes lentes redondas que encobriam tantas
coisas, que quereria ver por muitas e muitas manhãs.
Ele falava palavras difíceis que soavam tão melódicas quanto sua
imaginação. Contestava todas as vírgulas do mundo, e ela se encantava mesmo
assim. A cena corria em câmera lenta, atenta a todos os minutos que os levavam
até ali. Não resistiu e deu-lhe um beijo ousado, romântico, com os olhos
fincados na expectativa de tê-lo, finalmente, encontrado. Achava mesmo que
aquela postura contestadora e ativa era
o sintoma puro de uma enorme timidez. A tradução oposta do medo de se
jogar às imprevisíveis complacências que o encantamento é capaz de causar. A
armadura perfeita para uma estratégia de proteção.
Mas num tempo qualquer, por qualquer ou nenhuma razão, num surto
cósmico da loucura estimulada, aquele mundo desabou. O pálio era agora amargo,
numa quase-acidez que contrapunha os sentidos de seus dedos, escancarava seu
sorriso frio. A lucidez que aparentava a crueldade nas palavras não lhe cabia
como uma simples tese acadêmica de escola nenhuma. Romper-se assim, e ainda
pior, deixar-se romper por fato qualquer e desconhecido era o que a
desnorteava. Ela sequer pode esconder. As palavras lhe saíram pela boca ansiosa
antes que a razão as pudesse dosar. E o romance, de tanta dor, sucumbiu ali, na
agonia feia que não quisera ter.
