terça-feira, 23 de abril de 2013



A questão não era desvendar o indecifrável. Os mistérios do coração andam muito longe de um pergaminho qualquer. O que ela queria, naquele instante, debaixo da sua luz solitária e daqueles olhos perdidos, era romancear. O filme indiano que acabara de ser visto falava a mesma língua simples e lúdica das pequenas coisas, como o passeio dos seus dedos pelo braço de um estranho. Era confortável, admitia, sentir-se aconchegada num abraço ainda desprovido das histórias a dois. Quem sabe era esse o sorriso tímido, quase sempre escondido atrás das grandes lentes redondas que encobriam tantas coisas, que quereria ver por muitas e muitas manhãs.
Ele falava palavras difíceis que soavam tão melódicas quanto sua imaginação. Contestava todas as vírgulas do mundo, e ela se encantava mesmo assim. A cena corria em câmera lenta, atenta a todos os minutos que os levavam até ali. Não resistiu e deu-lhe um beijo ousado, romântico, com os olhos fincados na expectativa de tê-lo, finalmente, encontrado. Achava mesmo que aquela postura contestadora e ativa era  o sintoma puro de uma enorme timidez. A tradução oposta do medo de se jogar às imprevisíveis complacências que o encantamento é capaz de causar. A armadura perfeita para uma estratégia de proteção.
Mas num tempo qualquer, por qualquer ou nenhuma razão, num surto cósmico da loucura estimulada, aquele mundo desabou. O pálio era agora amargo, numa quase-acidez que contrapunha os sentidos de seus dedos, escancarava seu sorriso frio. A lucidez que aparentava a crueldade nas palavras não lhe cabia como uma simples tese acadêmica de escola nenhuma. Romper-se assim, e ainda pior, deixar-se romper por fato qualquer e desconhecido era o que a desnorteava. Ela sequer pode esconder. As palavras lhe saíram pela boca ansiosa antes que a razão as pudesse dosar. E o romance, de tanta dor, sucumbiu ali, na agonia feia que não quisera ter.





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