Tive vontade de falar. De chorar,
argumentar e fazer outro ouvido entender o que uma cabeça cheia de loucura se
punha a pensar. Queria dizer, em palavras bonitas de um vocabulário ali
perdido: eu te amo, hoje. Poderia não amar amanhã ou depois, poderia morrer de
amor, mas nada disso importava naquele hoje. Eu tinha o mar escuro, o céu azul
marinho e uma mão segurando a minha mão. Aquilo me bastava de uma forma que a
ideia de planejar o amanhã não tinha espaço pra respirar. Tive vontade de
gritar e apertar aquele corpo contra meu num ímpeto nervoso de dizer: eu te
amo, hoje. Poderia te amar mais amanhã. Poderia implorar um único e solitário
beijo, ajoelhar na grama e declarar vitória à paixão. O outro poderia rir dos
meus motivos vis, beijar minha mão e dizer adeus. Isso me bastaria. Mas isso eu
nunca conseguiria explicar. Eu queria ser dona de uma retórica madura pra fazer
o outro entender que nunca tenho planos, especialmente pro amor. Que minhas
poucas tentativas de alcançar uma ideia fracassaram por completo, e que, no
fracasso, eu sorria. Porque gostava de não saber o que acontece depois. Eu queria
tantas coisas que não sabia como dizer. E contrariando os planos rasos, sorri e
disse adeus.