Ana era melhor amiga de Lucia. Que era melhor amiga de Carla. Que
era melhor amiga de Tati. Que não era amiga de ninguém. Num dia sem sol, Carla
confidenciou à Lucia um segredo mortal. Três horas depois, o telefone de Ana
tocou: era Lúcia, que gaguejava sem saber falar. Saíram para ver um filme:
Woody Allen fechava o ano com um novo oitavo. Ana sabia que algo a afligia, mas
sabia também esperar. Elas não conheceram o homem dos seus sonhos. Mas fora dos
sonhos, Carla tinha contado à Lúcia um segredo de Tati – que não era amiga de
ninguém. O feito correra vinte e nove quarteirões sem poder ser resolvido: Tati
morreria nas próximas vinte e quatro horas. Como
assim, é uma brincadeira? Não era. Tati planejara milimetricamente seu
plano maligno de morrer - de arrependimento. Não tinha amigos, nem escrúpulos,
nem saldo na conta bancária: o momento era chegado com louvor. Nas próximas vinte e quatro horas, vou dizer
adeus com um sorriso de quem nunca foi mais feliz. Elas só tinham uma
fofoca, alguns trocado e nenhuma intimidade com Tati, que não era amiga de
ninguém. Correram para o condomínio, esperando ela sair, mas Tati não saiu. Uma
hora e quarenta minutos de espreita, os poucos que entravam e saíam não eram
ela. Nem imaginariam o que haveria de ocorrer, e se imaginassem, fingiriam não
saber. Duas horas e cinquenta e cinco minutos, as duas amigas entraram num
descuido no portão, subiram as escadas e deram de cara com a porta entreaberta
do apartamento 302. Entraram. Mas Tati já tinha descido e ido sem avisar –
porque não era amiga de ninguém.
